terça-feira, 24 de maio de 2022

Condição imposta

“Toda terça eu frequentava o AA, desde que tinha parado realmente de beber eu tinha que me lembrar que era necessário comer a noite, antigamente depois que escurecia a única coisa que eu ingeria era álcool. 

Do lado da igreja que hospedava o grupo tinha uma padaria. Do lado de fora era bonita, padaria de esquina com letreiro grande muito parecida com zona nobre de São Paulo. Porém, quando entrava, tinha uma energia caótica. Era perceptível que a clientela seria a mesma que frequentaria o AA junto comigo.

Nesse dia havia chegado mais cedo, a reunião começava às 20h. Entrei na padaria. Olhei a vitrine com os salgados secos, um croissant tinha uma mosca, que não parecia ter pressa de sair. 

“Tem salgado fresco, feito hoj… agora?” 
“Não, mas tem microondas, da pra esquentar” 
“Ah…” 

No balcão perto da pia vi um tomate, parecia ingerível. 

“Vocês fazem sanduíche natural?”
“Tem essas opções” disse a moça apontando pra uma placa com letreiro em amarelo.

X Salada
X Bacon 
Pão na chapa
Americano 

“O que vem no Americano?”
“Ovo, presunto, queijo e alface”
“Pode ser esse”

Tentei não olhar pra chapa pra não ver algo que me causasse arrependimento.
Enquanto eu aguardava um homem sentou do meu lado, um cheiro que era mistura de chulé com suor seco, mas surpreendentemente bem vestido, embora o mau cheiro. 
Pediu uma dose de cachaça e um salgado de carne. 
A cachaça chegou e logo em seguida meu Americano. Meu ovo escorrendo óleo pela beirada e meu alface parecendo que foi pisoteado. Enquanto eu encarava meu sanduíche o homem já tinha tomado sua dose e pedido outra. 

Enfrentei meu sanduíche, não estava ruim. Na pedida da terceira dose do homem, pedi um suco de laranja para acompanhá-lo. 

Ele virou o terceiro copo e apoiou a testa na mão esquerda, enquanto segurava o salgado de carne mordido apenas uma vez.

Recebi minha taça de suco de laranja. Enquanto tomava, observei o homem se levantar, ajeitar a camisa, respirar fundo, deixar o dinheiro no balcão e ir embora. 

Nas próximas duas terças-feiras praticamente a mesma cena se repetiu. 

Na terceira semana ele já estava sentado no balcão com a cabeça apoiada entre as mãos, olhei o relógio, havia chegado 10 minutos atrasado do nosso encontro. Antes de eu pedir meu sanduíche de óleo, perguntei sem me conter: 

“Tá pronto pro que tem que enfrentar?”
“Pensei que estivesse, mas nunca estou” 
Pela minha surpresa ele respondeu, na melhor das hipóteses esperava ser ignorado.

Ele me encarou com o olho vermelho: 
“Ninguém está preparado pra enfrentar a vida medíocre, embora todos nós acabamos indo por esse caminho.”

Ele se levantou, ajeitou a camisa, respirou fundo e foi enfrentar sua vida medíocre.”

(Gleide Victoria)

Travessia

A observei tentando atravessar a rua, não sabia por quanto tempo estava tentando.

Por um tempo ela analisou a passagem, ia, fracassava e voltava - mas acho que só estava calculando o tempo de travessia - por outros momentos ela se arriscava  pra testar que se ficasse entre as rodas do ônibus ela não seria esmagada, mas percebeu que isso só funcionava em uma das faixas, porque no restante os outros automóveis passavam sem um padrão confiável. O farol finalmente indicou vermelho, era seu momento: correu desgovernada. Uma moto inesperada passou por ela, no momento me veio uma dorzinha no coração, mas consegui enxergar ela lá de novo correndo pela avenida - ufa - agora já quase perto de seu destino, o farol abriu, as motos vieram primeiro, mas ela não se abalou. Ainda educadamente deu passagem pro carro que vinha em alta velocidade e sumiu na escuridão do bueiro. 

Humanos e baratas nunca foram tão diferentes assim.

(Gleide Victoria)

Ânsia

Quero sentir tudo na intensidade
Principalmente a dor
Para que na ausência dela, eu possa me alegrar 
E assim, na normalidade, minha vida ser prazerosa.

Quero que meus pés calejem de tanto andar para que quando me encostar, o descanso seja aliviante.

Quero sentir tanto frio a ponto da minha carne enrijecer e assim quando me oferecerem abrigo, manta e uma lareira, eu possa bendizer a Deus. 

Quero experimentar a dor mais profunda das chagas, com um desgraçado enfiando-me uma agulha na ferida que ainda sangra, para que quando alguém me faça um curativo eu chore de felicidade.

Quero carregar em minhas costas uma mochila com cimento durante toda uma maratona porque depois, carregar qualquer tijolo me seria um refresco.

Quero sorrir enquanto me atravessam uma espada e morrer de felicidade ao receber um bom anúncio.

De Deus aceito todas as feridas, somente peço que não me limite de viver, enquanto meu corpo físico é vivo.

(Gleide Victoria)

Ex criatura

Alguém reconhecida pela liberdade.
Não é um adjetivo que se defina, só é.
e de fato é subentendido.

Quando entrei no buraco eu disse que voltaria.
É uma fase, só não sabia quando acabaria.

O tempo passava e a escuridão me sufocava
a prisão parecia cada vez mais funda e solitária.

Parecia uma escolha, então soltaram-me as mãos.

Mas só eu sei, para onde ir e por onde andei.

Eu tento e testo,
A liberdade não é algo que simplesmente me esquivo,
não sou eu a mentirosa, foi Sartre que escreveu o livro.

Peguei o impulso assim que meus dedos tocaram o fundo.
Num salto, minhas mãos agarraram o barro da parede.
Encarei o alto,
O sol já não me era íntimo e por isso meus olhos se irritaram.

As lágrimas escorriam ao decorrer do abandono da escuridão;
Era doloroso abandonar a vida no poço.
A pele ardia.

No topo, escondi o rosto;
a luz constrangia,
á mim, mera ex criatura do subsolo.

Quando a pele já mais não precisava do ar úmido,
avistei a sarça ardente,
me lembrei da bondade do sol,
Então tive a certeza:

Estou condenada a ser livre.

(Gleide Victoria)

Só eu e Deus

2021

Vasculhei a mochila, encontrei a chave. Inseri na fechadura e rodei devagar. A porta abriu com lentidão e nem me esforcei pra ajudar. Encarei o corredor mal iluminado e respirei fundo. Fui entrando, fechando a porta, uma mão deixava a mochila em um canto e a outra desabotoava a calça. Com violência tentava tirar o jeans que com muita resistência desceu até a batata da perna e finalizei o trabalho com os pés mesmo, deixando o jeans - pior invenção de vestimenta - jogado pelo corredor. 

Ao fim do corredor, uma janela grande e descoberta, ainda não havia comprado uma cortina, certamente o vizinho poderia ver com nitidez cada centímetro das minhas estrias. Dei de ombros. Não seria a primeira vez que ele veria coxas femininas. 

Abri a geladeira: água, margarina e metade de um vinho barato. Abri o vinho, enchi uma taça.

Sentei no sofá. No canto vi o toca disco empoeirado, levantei e puxei qualquer disco: Ella Fitzgerald, uma boa escolha do universo.

Botei pra girar e encostei a agulha. Na primeira estralhada padrão do toca disco deitei no sofá, não sabia qual música viria. Ouvi os primeiros acordes: Stairway to the stars, com certeza uma boa pedida do universo.

Olhando pro teto esperava ansiosa pela voz de Ella. Numa micro expressão de felicidade agradeci. Esse ano seria só eu e Deus, assim como todos os outros.

- Gleide Victória

Diálogo

Fazia dois anos desde a última vez que nos falamos. Não chegou a ser amor, mas com certeza foi uma paixão que não se encontra em qualquer esquina. 

Tomei a decisão da ligação. Quero dizer... Nem pensei, só apertei o botão do telefone do lado do nome do contato de WhatsApp. 

Chamou. Uma, duas, três... Todas as vezes possíveis. Quando eu ia desistir, a voz atendeu: 

"Oi?" - Foi uma pergunta mesmo, carregada de curiosidade e admiração. 

"é... Oi! Eai" 

"Eai! Beleza?" - a voz cortava, a ligação pelo whatsapp era péssima, mas no meu pacote de telefonia não estava incluído ligações internacionais. 

"Beleza!" - Respondi sem saber como continuar.

"Como andam as coisas?" - foi uma pergunta sincera, a voz estava realmente interessada de como as coisas andavam. 

"Posso te fazer uma pergunta?" 

Silêncio por 2 segundos. 

"Claro que pode!"

"Como é ter mais de 30 anos?" 

Uma risada muito alta do outro lado da ligação.

"Você tá me tirando né? Dois anos depois me ligou só pra me sacanear que tenho mais de 30?" 

"Também! Mas eu só queria saber mesmo."

"Mas eu acabei de fazer 31, não tenho muita experiência em ter mais de 30."

"Esse é exatamente o momento que quero saber qual é a sensação de ter mais de 30, porque depois dos 35, é quase 40!"

A voz soltou outra risada escandalosa.

"Você continua exatamente a mesma [...] O que você quer saber?" 

"Quero saber se você se arrepende... Se você sente de alguma forma o peso dos 30." 

"Escuta uma coisa... (A voz agora parecia estressada) Se eu quiser casar com 40, eu caso. Se eu quiser ter filho com 45 anos, eu tenho, se Deus não achar bom me dar, eu adoto. Se eu quiser construir um império de hot dog aos 65 eu construo. Se eu quiser fazer intercâmbio aos 80 eu faço, ao menos que o destino me dê um corpo tetraplégico e espero que nem isso me pare… Você entende?" 

"Entendo sim"

"Olha... Eu entendo a confusão que existe em você. Mas eu também te conheço a ponto de saber que o valor que você quer dar pro seus filhos é mais que trabalho e educação acadêmica. E pra isso, você precisa viver outras coisas e dar valor a outras experiências, que não seja só em prol do dinheiro."

"Esse papo de peso dos 30 é só o falso atraso em relação ao dinheiro né?" 

"Claro que é! Poxa, eu não posso me arrepender de ter vivido!”

"As vezes a ganância fala alto nas melhores famílias." 

"Eu sei, mas não é ruim ganhar dinheiro, só tem que lembrar que esse não pode ser o propósito de tudo."

"Certo" 

"Certo então. Mais alguma pergunta senhorita?" 

"Ainda sou apaixonada por você"

"Você é apaixonada por mim ou pelo que eu posso te proporcionar?"

"E há diferença? Se você me proporciona, é algo que vem de você, certo?" 

"Mais ou menos..." 

Silêncio

"Eu também ainda sou apaixonado por você" 

"Por mim ou pelo o quanto eu sou levada pelo seu estilo de vida?" 

"Acho que é a mesma coisa mesmo." 

Soltei a risada mais leve dos últimos dois anos. A mais de 10.000 km de distância eu ouvi outra risada leve como resposta. 

(Gleide Victoria)

Diálogo de transporte público

[…]

- O Luiz nem me fale... Só quer saber de cagar, comer e dormir! Chega da escola e se tranca no quarto a tarde toda com aquele video game.
 - Meu filho o mesmo, nunca lavou o próprio prato que comeu, chega em casa, vai tirando a roupa e jogando pela casa e eu que tenho que ir catando.
 - Filho mesmo é uma benção –ironizou–, não vejo a hora do meu arrumar um emprego.
 - E eu então? Meu filho é toda semana levando menininha pro quarto, saber de trabalhar nada, eu que as vezes dou algum dinheiro pra ele sair. 
 - Aí é complicado mesmo... Isso eu não deixo o Luiz fazer não. 
 - Quantos anos tem o Luiz?
 - Dezesseis e o seu?
 - Trinta e dois.
 - Ahhh...

(Silêncio)

Não tenho minha idade

Eu vivi.
Vivi tanto que não tenho minha idade
Meus dias foram contados em semanas
Evolui em reflexão e isto me tornou essência
Me permiti negar o pão
Enxerguei a China sem meus pés ter a tocado
Observei os pássaros como figuras divinas
Não me limitei a monotonia dos meus olhos
Cativei as pessoas com um sorriso
E elas me sorriram de volta
Racionalizei o sofrimento
E pude aprender com ele
Eu senti com a alma
E minh'alma me entregou a Ásia inteira
Até aqui,
Deus esteve comigo.
(Gleide Victória)

Demônios

9h54
Um dia ruim, uma fase.
Em uma piscada longa, dormi. O freio bruto do trem me acordou com um susto. Meu olhar foi direto para um crucifixo grande com uma camisa de fundo de um marrom desgastado, logo abaixo uma mão preta com um terço. Meus olhos subiram e encontraram olhos negros fixos em mim. Não me constrangeu, eram olhos piedosos. Soltei em pensamento "reza por mim, amigo" e ele surpreendentemente fez um aceno sutil com a cabeça. Senti o corpo petrificado, os olhos umideceram, mas ainda consegui fazer um gesto de gratidão com as sobrancelhas e o rapaz piscou os olhos lentamente como forma de resposta. O trem anunciou minha estação, sai sem me despedir. Ainda conseguia sentir o peso do olhar do meu amigo desconhecido nas minhas costas por alguns segundos.

No terceiro aniversário da reza de um desconhecido suplicando pela minha vida, é a sexta vez que ouço sua voz ecoar na minha cabeça, enquanto sinto algum dos meus demônios sair de minhas entranhas.

- Gleide Victoria

Condição imposta

“Toda terça eu frequentava o AA, desde que tinha parado realmente de beber eu tinha que me lembrar que era necessário comer a noite, antigam...