terça-feira, 24 de maio de 2022

Demônios

9h54
Um dia ruim, uma fase.
Em uma piscada longa, dormi. O freio bruto do trem me acordou com um susto. Meu olhar foi direto para um crucifixo grande com uma camisa de fundo de um marrom desgastado, logo abaixo uma mão preta com um terço. Meus olhos subiram e encontraram olhos negros fixos em mim. Não me constrangeu, eram olhos piedosos. Soltei em pensamento "reza por mim, amigo" e ele surpreendentemente fez um aceno sutil com a cabeça. Senti o corpo petrificado, os olhos umideceram, mas ainda consegui fazer um gesto de gratidão com as sobrancelhas e o rapaz piscou os olhos lentamente como forma de resposta. O trem anunciou minha estação, sai sem me despedir. Ainda conseguia sentir o peso do olhar do meu amigo desconhecido nas minhas costas por alguns segundos.

No terceiro aniversário da reza de um desconhecido suplicando pela minha vida, é a sexta vez que ouço sua voz ecoar na minha cabeça, enquanto sinto algum dos meus demônios sair de minhas entranhas.

- Gleide Victoria

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