terça-feira, 24 de maio de 2022

Só eu e Deus

2021

Vasculhei a mochila, encontrei a chave. Inseri na fechadura e rodei devagar. A porta abriu com lentidão e nem me esforcei pra ajudar. Encarei o corredor mal iluminado e respirei fundo. Fui entrando, fechando a porta, uma mão deixava a mochila em um canto e a outra desabotoava a calça. Com violência tentava tirar o jeans que com muita resistência desceu até a batata da perna e finalizei o trabalho com os pés mesmo, deixando o jeans - pior invenção de vestimenta - jogado pelo corredor. 

Ao fim do corredor, uma janela grande e descoberta, ainda não havia comprado uma cortina, certamente o vizinho poderia ver com nitidez cada centímetro das minhas estrias. Dei de ombros. Não seria a primeira vez que ele veria coxas femininas. 

Abri a geladeira: água, margarina e metade de um vinho barato. Abri o vinho, enchi uma taça.

Sentei no sofá. No canto vi o toca disco empoeirado, levantei e puxei qualquer disco: Ella Fitzgerald, uma boa escolha do universo.

Botei pra girar e encostei a agulha. Na primeira estralhada padrão do toca disco deitei no sofá, não sabia qual música viria. Ouvi os primeiros acordes: Stairway to the stars, com certeza uma boa pedida do universo.

Olhando pro teto esperava ansiosa pela voz de Ella. Numa micro expressão de felicidade agradeci. Esse ano seria só eu e Deus, assim como todos os outros.

- Gleide Victória

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